O universo dos dramas BL tailandeses continua a expandir seus horizontes, e a grande aposta da Domundi, "Love Upon a Time", provou que o romance e a história rica da Tailândia são a combinação perfeita. Estrelada pela popular dupla Net Siraphop e JJames Supamongkon, a série transporta o público diretamente para o Período Ayutthaya, a era mais fascinante, cosmopolita e esteticamente deslumbrante do antigo Reino do Sião.
Na trama, acompanhamos Phob (Net), que após um mistério intrigante é jogado cerca de 400 anos no passado, acordando no corpo de Tinn, um jovem nobre da corte. É nesse cenário de palácios de madeira e rituais sagrados que ele reencontra Nakkhun (JJames), o homem que conecta seu presente a um amor trágico de vidas passadas.
Mergulhando na Sociedade de Ayutthaya: A Verdadeira Era de Ouro
O Período Ayutthaya (1351 – 1767) não é apenas uma época qualquer; ele representa a verdadeira Era de Ouro da Tailândia. Foi um império tão grandioso, rico e cosmopolita que os mercadores europeus que o visitavam no século XVII o comparavam a capitais como Paris e Veneza.
Para entender o cenário e a atmosfera onde os personagens de Love Upon a Time se movimentam, vale a pena detalhar como funcionava aquela sociedade em seus eixos principais:
1. A Estrutura Social e o Poder do Rei (Sakdina)
A sociedade de Ayutthaya era rigidamente hierarquizada através de um sistema chamado Sakdina, que distribuía "pontos" ou valor de terras para cada cidadão de acordo com seu status.
- O Rei como um Deus: O soberano não era um governante comum, mas considerado um Devaraja (um Rei-Deus, encarnação de divindades hindus como Vishnu ou Shiva) e um Buda vivo. As pessoas comuns não podiam sequer olhar diretamente para o rosto do rei e, ao falar com ele, eram obrigadas a usar uma linguagem real ultra-formal (o Ratchasap), declarando-se "pó sob os pés de sua majestade".
- A Nobreza (Munnai e Khun Nang): Esta é a classe influente à qual pertencem as famílias da corte na série. Os nobres controlavam grandes contingentes de servos e tinham enormes privilégios, mas viviam em um jogo constante de aparências, casamentos arranjados para manter o status e disputas políticas silenciosas pelo favor real. Na produção, as ricas vestimentas (Chut Thai) e calças Chang Kben de seda reluzente e joias usadas pelos atores indicam exatamente esse grau de poder.
2. A "Veneza do Oriente" e o Comércio Global
A capital foi construída estrategicamente em uma ilha cercada por três grandes rios (Chao Phraya, Pa Sak e Lopburi). Com o tempo, os siameses cavaram centenas de canais internos, transformando a água na principal via de transporte da narrativa.
- Vida Flutuante: Os habitantes não andavam de carruagem; deslocavam-se em belíssimas canoas e barcos de madeira adornados, que cruzavam o reino ditando o ritmo visual imersivo que vemos na tela.
- Polo Cosmopolita: A cidade era um centro comercial gigantesco, abrigando bairros inteiros dedicados a estrangeiros — como vilas de portugueses, espanhóis, holandeses, persas, japoneses e chineses. Por conta disso, a corte era farta em tecidos exóticos, especiarias e porcelanas finas que enriquecem a direção de arte da série.
3. A Vida Cotidiana e os Costumes
Caminhar pelas ruas de Ayutthaya há 400 anos revelaria uma rotina profundamente ligada à natureza e à espiritualidade:
- Casas Flutuantes e Palácios de Madeira: Enquanto o povo vivia em casas de palha e bambu suspensas por palafitas à beira dos rios, a nobreza e os monges desfrutavam de complexos palacianos grandiosos feitos de madeiras nobres (como a teca), com telhados sobrepostos ricamente esculpidos.
- Espiritualidade Diária: O Budismo Theravada, misturado com o Hinduísmo, regia os dias. Logo ao amanhecer, os cidadãos ofereciam comida aos monges que passavam de barco coletando esmolas. Acumular mérito (fazer o bem para garantir uma boa próxima vida) era a maior obsessão daquela cultura — o que serve como o elo perfeito para a temática de reencarnação e carma que une os protagonistas.
- Estética Corporal: Tanto homens quanto mulheres usavam o cabelo curto em um estilo muito específico da época (como o corte Mahadthai) e costumavam mascar noz de betel, um hábito social que deixava os dentes temporariamente pretos, visto na época como sinal de beleza e alto status (embora as produções televisivas atuais costumem suavizar isso visualmente por fins estéticos).
A dualidade do período: Ao mesmo tempo em que era uma era de arte poética, tecidos de seda reluzentes e templos dourados, Ayutthaya também foi marcada por guerras sangrentas contra o Império Birmanês e punições severas na corte para quem desobedecesse às leis reais.
É exatamente essa mistura de beleza artística, misticismo espiritual e a tensão constante de uma corte cheia de regras rígidas que torna o cenário perfeito para um romance dramático e intenso. Mais do que um mero pano de fundo, a era Ayutthaya dita o ritmo do amor entre Phob e Nakkhun, que precisam enfrentar o choque cultural de um homem do século XXI, dialetos antigos, as barreiras da nobreza e os perigosos segredos que rondavam os palácios da antiga capital.
Para os fãs de dramas de época (Lakhon) e entusiastas da cultura tailandesa, Love Upon a Time se consolida como uma verdadeira e imperdível aula de história visual.